Matutando na internet


Vinho em Pessoa...

Não só vinho

Não só vinho, mas nele o olvido, deito
Na taça: serei ledo, porque a dita
É ignara. Quem, lembrando
Ou prevendo, sorrira?
Dos brutos, não a vida, senão a alma,
Consigamos, pensando; recolhidos
No impalpável destino
Que não ‘spera nem lembra.
Com mão mortal elevo à mortal boca
Em frágil taça o passageiro vinho,
Baços os olhos feitos
Para deixar de ver.

(Ricardo Reis)



Escrito por Fernando Sevá às 09h54
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Cometi Orkuticídio ...
 
Caros, já se vão 10 anos de vida "on line", muita coisa e boa e ruim pelo meio de tantos bytes, experiências gratificantes outras nem tanto, enfim.. um highlander digital, aderindo sempre a todas novidades do mundo virtual... uma dessas porém foi bastante peculiar, o Orkut, testemunhos, amigos, recados e por aí vai.. gostei, viciei, cansei, relutei e acabei por matar o meu perfil, antes ele do que eu.
 
Abaixo um texto que achei hoje na net e que talvez sirva pra dizer os porquês desse ato de findar com o mundo virtual do Orkut.
 
Abraços a todos.
 
Fernando Sevá
 
Por Keid Sammour.

Conversei dia desses com um amigo sobre a invasão brasileira ao Orkut, e tentamos fazer previsões sobre as possíveis atitudes do Google sobre esse fato: Publicidade ultra-segmentada? Assinatura do serviço? Extinção? Em suma: nenhuma conclusão sobre o porvir deste fenômeno recente que, apesar de americano, é a coisa mais brasileira da Internet.

Se o futuro é incerto, no momento o Orkut está decadente, pois perdeu o frescor de novidade. Antes, a curiosidade guiava as pessoas até lá; hoje, me parece ser a lucidez que as mantém longe. Esse desacordo me assolou com a necessidade de entender o impacto do site sobre a vida das pessoas. Como ponto de partida, observei os exemplos de pessoas próximas e a mim mesmo. Recentemente, e depois de alguns fatos testemunhados, eu cometi orkuticídio (eliminação voluntária do perfil).

Seria o Orkut um totem da nossa inerente necessidade de sociabilização?  Marcelo Coelho, em sua coluna na Folha de S. Paulo, definiu que é assim que o histórico espírito de cordialidade brasileira (o tapinha nas costas) sobrevive também no meio dessa modernidade. Mas achei que isso seria apenas um sintoma, e algo maior está velado na relação com o site.

Hoje, à distância, o Orkut se mostra a mim algo como um emblema reducionista. Ainda que eu reconheça o que ele me ofereceu quanto ao resgate da minha história - amigos de infância e adolescência fragmentados em lembranças; a volta de pessoas queridas, mas distanciadas - entendi que a brincadeira foi transformada em exercícios de vaidade esquizofrênica.   

Ainda não vi pesquisas, mas li opiniões e presenciei acontecimentos, e isso me causou firmes impressões sobre possíveis prejuízos quanto ao uso do Orkut. Intuo que esses arremedos de agregação social podem debilitar personalidades, pois reduzem muito do esforço necessário e imprescindível que temos na vida para manter relações interpessoais. Isto, o site simula com maestria e ameniza a ansiedade desse processo. A alma humana precisa de ritos, bem como impor restrições a si mesma. Facilidade nem sempre é virtude. As situações bem-sucedidas que acontecem - reencontro feliz com o passado, histórias de amor que dão certo, novas amizades que serão aprofundadas - não têm sua realização atrelada à tecnologia. Independente do ambiente, essas coisas são possíveis.

Mas no Orkut não existe uma linha que separe o público e o privado, uma vez que os scrapbooks são abertos e todos podem ler conversas inteiras. Penso também na ansiedade repetitiva que a chance de novas mensagens pode gerar. Qual o motivo para alguém expor particularidades desabonadoras, escancarar a vida afetiva e agonizar nessa praça pública virtual como assim o fazem?  O about me é um palco irresistível, pois permite o desfile de identidades em múltiplos trajes virtuais.

Testimonials são atestados tortos sobre a índole de desconhecidos, já que não é costume falar mal dos amigos em público. Conceitos se confundem, valores se camuflam, a intimidade é farsa e superlativos tornam-se moeda de troca. Têm-se desde uma honestidade pungente - que, desconectada, na vida social seria revogada pela concepção de respeito ao outro - até mentiras complexas. Tudo em busca de um reflexo impossível de ser conseguido num cotidiano concreto; mas, forjada e anônima, essa dissimulação pode fazer frustrações encontrarem cumplicidade e solidariedade, além de animar egos.

De modo ilusório as verdades sociais são minimizadas, a geografia torna-se irrelevante, o status é nivelado. Quem faz sucesso - ou quem coleciona maior número de pessoas e/ou recebe maior número de scraps - são aqueles que têm habilidade em se comunicar. Ou talvez as pessoas que melhor repliquem, por meio de seu perfil, os estereótipos românticos e sexuais vigentes, autônomos a preferências de gênero, e sejam projeções desejáveis - a elas destinam-se o resplendor e a certeza de adulação. Eis a regra do Orkut: uma pálida, porém leal imitação da vida.

Soube de uma história de amor que começou no Orkut, mas, ao ser convertida à vida real, ruiu dramaticamente. Até o encontro efetivo, que prometia ser a concretização de um desejo compartilhado por duas pessoas desconhecidas separadas pelo destino, o efeito de realidade norteou e legitimou a esperança do afeto ser verdadeiro. Infelizmente não era. Enfrentada, a realidade fez emergir os defeitos que voluntariamente se ocultaram por entre e-mails, chats no messenger e telefonemas interurbanos. Faltou aos amantes a consciência de que a ausência do corpo, a falta de convivência, e a omissão de detalhes das personalidades de ambos não sustentam a concretude que uma relação exige. A despeito da dor imobilizante para uma das partes, a relação, baseada em valores desatrelados da verdade, terminou com a previsível facilidade de desligamento pela outra. A virtualidade justifica atitudes.

Pesei a relação custo-benefício e fugi dessa floresta digital paranóide. No momento em que eu apagava meu perfil e lembrava da ?lista de amigos?, uma frase de Proust ecoava em mim: "a amizade não é mais que uma mentira que nos faz acreditar que não estamos irremediavelmente sós". Os simulacros do Orkut autenticaram para mim o ceticismo dele. Ao contrapor com a vida real, meu orkuticídio foi feito com alívio e paz de espírito.
Keid Sammour é planejador de mídia da LoV - A Nova Geração. (keid_idgnow@terra.com.br)


Escrito por Fernando Sevá às 12h41
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